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Como salvar a natação, por Pieter van den Hoogenband

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2007-11-20T13:11:00

07/11/2013 11h00

Equipe brasileira 4x50m livre misto (foto: Instagram de Larissa Oliveira)

Equipe brasileira 4x50m livre misto (foto: Instagram de Larissa Oliveira)

Ontem, na última prova da etapa de Cingapura da Copa do Mundo em piscina curta, por pouco o Brasil não conseguiu um recorde mundial. A equipe do revezamento 4x50m livre misto, composta por Nicholas Santos, Fernando Silva, Larissa Oliveira e Graciele Herrmann, venceu a prova com o tempo de 1min31s20, ficando somente a seis centésimos da marca da equipe francesa, conseguida há duas semanas.

Como todos sabem, os revezamentos mistos, apesar de aparecerem com frequência em competições master, são uma novidade na natação de alto nível. Começaram a ser disputados no ano passado, mas passaram a ter recordes reconhecidos em piscina curta este ano. Por isso, os recordes vêm caindo seguidamente. E ainda nos deparamos com a situação absurda de, no 4x50m livre, o recorde mundial ser de 1min31s14 da França, mas a melhor marca da história ser de 1min29s31  de uma equipe australiana. Isso porque, quando começou a reconhecer os recordes, a FINA não estipulou um tempo mínimo para que uma marca fosse reconhecida como recorde mundial (como fez, por exemplo, quando começou a reconhecer as marcas em provas de 50 metros), e esse tempo da Austrália foi obtido antes disso.

De qualquer forma, a inclusão desses revezamentos representam novas provas no programa da natação. Para muitos, e para a FINA evidentemente, é uma forma de atrair a atenção e tornar o esporte mais popular.

O inchaço do programa com esses fins não é novidade, e vem sendo recorrente nos últimos anos.

No início da década de 90, mundiais de curta e longa e Jogos Olímpicos tinham exatamente o mesmo programa, sem semifinais e sem provas de 50m estilos, 100m medley e 1500m femino e 800m masculino.

Para efeito de comparação, no Mundial de curta de 1993, no Mundial de longa de 1994 e na Olimpíada de 1996, entre eliminatórias e finais, houve 64 eventos no total (16 provas para cada sexo, com eliminatórias e finais para cada um).

No Mundial de curta de Istambul em 2012 e no Mundial de longa de Barcelona em 2013, foram nada menos que 106 e 108 eventos em cada competição, respectivamente, um acréscimo de mais de 65% em relação à decada de 90.

Na Olimpíada de Londres em 2012, o programa de provas foi exatamente o mesmo de 1996, mas com as semifinais o número de eventos aumentou para 84, ou 31%.

O Mundial de curta de 1993 foi realizado em quatro dias. O de 2012, em cinco.

Mundiais de longa e Jogos Olímpicos eram realizados em seis dias na década de 90. Hoje, são realizados em oito.

O acréscimo de provas vêm sempre com o argumento de valorizar mais nadadores e tornar a natação mais atrativa. Mas a impressão que fica é que, a seguir nessa toada, logo competições de natação durarão dez dias ou mais, com ainda mais provas.

Será que essa é realmente a saída?

Pieter van den Hoogenband discorda. Para ele, revezamentos mistos não acrescentam nada. Não só isso. O holandês voador lidera uma corrente para enxugar o programa da natação atual. Para ele, "menos é mais".

Pieter van den Hoogenband (foto: Matthew Lewis/Getty Images Europe)

Pieter van den Hoogenband (foto: Matthew Lewis/Getty Images Europe)

Em sua coluna no jornal holandês Der Telegraaf, ele argumenta que sessões com semifinais e finais com duas a três horas de duração, após eliminatórias que duram de três a quatro horas, não prendem a atenção de ninguém. O formato deveria ser mais enxuto e mais focado. Segundo Pieter, a distribuição de tantas medalhas faz com que estas não sejam valorizadas pelo público como deveriam. Com menos provas, os campeões seriam muito mais reconhecidos.

Para ele, o programa de provas ideal teria:

– 50m, 100m, 200m e 1500m livre
– 100m estilos
– 400m medley
– 4x100m livre e medley

Será coincidência ele sugerir uma mudança tão grande e ainda assim manter justamente 50m, 100m e 200m livre, provas nas quais ele é medalhista olímpico?

De qualquer forma, é uma opinião interessante e que vai contra a tendência. Em relação a disputa de semifinais, alguns nomes conhecidos na natação já se manifestaram contra. Craig Lord, respeitadíssimo jornalista britânico e editor do site SwimVortex, diz que as semifinais fazem com que o programa "fique mais longo do que o necessário e na maioria dos casos não acrescentam nada ao que já esperariamos."

O ex-nadador Marcelo Menezes há alguns meses postou no Blog Epichurus um texto que tem muito a ver com essa discussão. Fala sobre as sugestões de Tio Antônio, um pai de nadador, sobre as provas que deveriam ser disputadas. Leia aqui.

As sugestões de Tio Antônio guardam semelhanças fortíssimas com as de Pieter. Ele dizia que "não é que eu não goste de natação. Eu só acho que ela não tem muito foco e tem provas demais." Exatamente o mesmo argumento do holandês voador.

A discussão é complexa e longa. Não existe fórmula ideal, mas é interessante observar opiniões que divergem tão fortemente do que é o usualmente praticado, com argumentos muito plausíveis. Se personalidades tão distintas como Pieter Hoogenband e Tio Antônio têm opiniões convergentes, não parece loucura imaginar que suas sugestões atrairiam um público novo, amplo e diversificado para a natação.

Por Daniel Takata

Sobre o Autor

Daniel Takata
Redator da Revista Swim Channel. Tem colaborado com os principais veículos impressos e eletrônicos sobre natação e vem comentando competições no SporTV.

Guilherme Freitas
Jornalista da Revista Swim Channel e correspondente internacional de imprensa da FINA (Federação internacional de Natação), formado pela FMU e pós-graduado em Globalização pela Escola de Sociologia e Política.

Patrick Winkler
Editor- Chefe da Revista Swim Channel, Colunista da Radio Bradesco Esportes FM. Graduado em administração de empresas na Universidade Mackenzie, e pós-graduado em Gestão do Esporte pelo Instituto Trevisan.

Mayra Siqueira
Repórter da Revista Swim Channel e jornalista esportiva da Rádio CBN. É correspondente da FINA (Federação internacional de Natação) no Brasil e é colunista de natação para o Blog Esporte Fino, da Carta Capital.

Sobre o Blog

A Swim Channel é uma editora formada por nadadores que escreve exclusivamente sobre natação sendo eleita a melhor revista do segmento no mundo inteiro no ano de 2012. Através deste Blog, consegue fomentar noticias diárias aumentando o alcance do conteúdo editorial. Acompanhe entrevistas com atletas e personalidades, cobertura dos principais eventos, análises das diversas áreas relacionadas a nossa modalidade.